Grupo investigado após morte de adolescente de 13 anos mantinha comunidade secreta no Discord

Grupo investigado após morte de adolescente de 13 anos mantinha comunidade secreta no Discord

Um grupo virtual investigado pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul por envolvimento na morte de uma adolescente de 13 anos, em Naviraí, mantinha uma comunidade privada na plataforma Discord e adotava critérios para selecionar novos participantes. Segundo informações divulgadas pela própria plataforma e pelas autoridades que investigam o caso, o acesso não era aberto ao público: novos usuários precisavam receber convite para entrar no ambiente.

A investigação faz parte da Operação Lívia, conduzida pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul com apoio do Ministério da Justiça e Segurança Pública e de forças policiais de outros estados. A operação começou depois da morte da adolescente, registrada em 22 de julho, quando ela participou de uma transmissão ao vivo no Discord. A apuração busca esclarecer como a jovem teria sido atraída para o grupo e qual foi a participação dos integrantes nas ações que antecederam a morte.

De acordo com as investigações, os integrantes das comunidades virtuais procuravam adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional. Depois de estabelecer contato e conquistar a confiança das vítimas, os suspeitos utilizariam ameaças, chantagens, humilhações e pressão psicológica para obrigá-las a cumprir determinadas ordens. A polícia apura ainda a prática do que chamou de “escravidão digital”, dinâmica na qual as vítimas seriam submetidas a um processo crescente de controle e coerção no ambiente virtual.

As autoridades também investigam relatos de incentivo à prática de atos violentos, automutilação, maus-tratos contra animais e conteúdos de caráter misógino. No caso da adolescente de Naviraí, a investigação aponta que ela teria sido submetida anteriormente a desafios e, posteriormente, pressionada a transmitir a própria morte pela internet. A transmissão teria durado aproximadamente 45 minutos.

O material apreendido durante a primeira fase da operação foi fundamental para ampliar a investigação. Celulares, computadores e outros dispositivos eletrônicos passaram por análise e, a partir das informações encontradas, os investigadores conseguiram identificar novos suspeitos que teriam funções de administração ou moderação dentro das comunidades virtuais.

Na segunda fase da Operação Lívia, deflagrada nesta terça-feira (15), foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão e seis medidas cautelares contra adolescentes no Distrito Federal e nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia e Rio de Janeiro. A ação resultou na apreensão de seis adolescentes, que passaram a ser investigados por possível participação nas comunidades virtuais.

A Polícia Civil continua tentando identificar outras possíveis vítimas e integrantes da rede. A preocupação das autoridades é descobrir a extensão das atividades do grupo e localizar adolescentes que possam estar sofrendo ameaças, chantagens ou outras formas de violência no ambiente digital.

O caso também provocou questionamentos sobre os mecanismos de proteção oferecidos pelo Discord para crianças e adolescentes. A plataforma informou que possui ferramentas de segurança e sistemas destinados a identificar e remover conteúdos que violem suas regras. Também afirmou colaborar com as autoridades e sustentou que atividades criminosas relacionadas aos investigados ocorreram em diferentes plataformas e aplicativos, antes e depois da remoção de usuários de seus servidores.

A investigação permanece em andamento. Como envolve adolescentes e possíveis vítimas menores de idade, as identidades dos envolvidos são preservadas. As autoridades orientam pais e responsáveis a acompanhar a atividade de crianças e adolescentes na internet, especialmente em grupos fechados, servidores privados e comunidades que funcionem mediante convite.